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sábado, 12 de outubro de 2013

Existe um Gamer dentro das Pessoas Grandes

– Vídeo Game é coisa de criança.

Ao longo da juventude ouvi muitas vezes esta sentença dos adultos, sempre no sentido de repreensão: como se tivesse que afastar o "mal do crescimento". Ainda hoje, por vezes recebo um convidado em casa – "pessoa grande" – e quando vê minhas prateleiras de jogos pergunta: "você coleciona filmes?" depois de revelada a natureza da exposição, quase sempre se instaura um clima de silêncio; um silêncio tão repreensivo quanto os adultos da minha juventude. Grande parte da sociedade ainda reprova os costumes gamers sob suspeita de ser "um atraso no 'adultecimento'", jogar é brincar e quem joga games desvela uma resistência em sair da condição infantil.


O problema é que talvez seja verdade! Se os gamers são como crianças, o ADA vai buscar compreensão na obra de maior grandeza para a humanidade no quesito da existência infantil: Le Petit Prince, de Antoine de Saint-Exupéry – "O Pequeno Príncipe", em brasileiro.

O Livro retrata uma "crise existencial" do autor. Ao cair com o avião no deserto, o mesmo começou a entrar em contato com personagens, metáforas de si mesmo, que acusam Antoine de ter crescido. De maneira bastante poética, os personagens – incluindo o pequeno príncipe – começam a lembrar das verdadeiras coisas sentimentais da vida que só as crianças experimentam. As crianças tem o estágio mais puro de humanidade e se tornar "grande" é entristecer com a tentativa de controle a vida.

O ADA – que recomenda a todos os adultos a leitura desta obra prima – separou apenas alguns trechos para ilustrar a ideia do artigo.

A desencorajada carreira de pintor


Antoine – quando criança – apavorado, faz o seguinte desenho, depois o põe para opinião de "pessoas grandes":



Os adultos não entendem os desenhos, precisam de todas as explicações possíveis. Imaginem que insistiram que isto era um chapéu! Antoine diz que foi obrigado a abandonar uma carreira promissora de pintor porque era repreendido por desenhar chapéus; os adultos o mandavam estudar ciências e números. As "pessoas grandes" insistem em transformar as crianças em "pessoas grandes".

O que é amizade para as pessoas grandes?


As pessoas grandes se enxergam como números e buscam valorizar as amizades pelos mesmos falsos parâmetros. Os adultos desaprenderam a enxergar a alegria do encontro com um amigo. Como descreve Antoine:
As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial.
Não perguntam nunca:
"Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas? "
Mas perguntam:
"Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?"
Somente então é que elas julgam conhecê-lo.
Se dizemos às pessoas grandes:
"Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado. . . "
elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes:
"Vi uma casa de seiscentos contos".
Então elas exclamam:
"Que beleza!"
(EXUPÉRY, O Pequeno Príncipe) 
O meu filho ensina muito mais do que eu a ele. Por vezes, antes de passearmos, indaga.

– Papai, onde agente vai terá coleguinha?
– Talvez ninguém que você conheça filho.
– Mas se eu conhecer ele será meu amigo.

Pensei: "é verdade, era assim!". Meu filho é o pequeno príncipe que me lembra como se deve avaliar uma amizade. Quando criança, não se tem os medos de errar e pode-se aproveitar verdadeiramente toda a alegria que é o encontro com o outro.

"O essencial é invisível aos olhos"


Os adultos são muito visuais. Querem sempre acumular milhões de coisas sem criar um verdadeiro vínculo com nada, talvez por defesa, para escapar da dependência, o medo da perda. Como exemplifica Antoine, na verdade não importa se aquele amigo de verdade não está mais com você; isto porque ele lhe cativou e você já não é o mesmo, toda vez que enxergar algo lembre seu amigo, a emoção invadirá seu peito. Vejam o diálogo da raposa:





Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo.[...]  só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
(EXUPÉRY, O Pequeno Príncipe) 

O Pequeno Príncipe é uma crítica ao caminho das certezas escolhido pelas pessoas grandes em detrimento à real vivência dos sentimentos humanos na infância. Exupéry escreveu a obra que, na história, mais bem representou a criança e que se transformou em um curso de re-infantilização obrigatório, penso. Por ironia, Antoine morreu precocemente e de forma bem adulta: em 1944, na 2ª guerra mundial, abatido pilotando um avião – Não, amigo Tom, não pra você ser soldado; era para ser pintor.

De volta ao gamers


Na verdade eu já havia trazido a questão do poder dos games de evocar a criança interior em duas ocasiões: No artigo dos jogos de terror e nas academias de arte. Mas será que os jogos realmente infantilizam?

Respondo relatando um encontro de vídeo jogadores que ocorreu em minha cidade. Eu, infelizmente já um pouco adulterado, estranhei ao ver as pessoas tão felizes, dançando e vestindo a fantasia de seus heróis – arranjaram um nome chique: cosplay. Fiquei olhando abismado a forma tão aberta com que as pessoas se tratavam; fui muito bem recebido em uma mesa de RPG (tabuleiro), não conhecia ninguém, nem sabia nada das pessoas que ali estavam e fui tratado com brilho no olhar por todos os jogadores. O mestre RPG da mesa falava com extrema energia – não sabia de onde tirava tanta – sobre os paladinos, arqueiros, reinos niflhein e outras "gamisses" mais; todos compartilhavam, ele levantava e lembrava meu filho quando gesticulava com uma espada invisível produzindo o efeito sonoro das magias. Depois de ver tanta celebração pensei: "Nossa, quanta criança!!!! O mundo não está perdido".

Desta forma, se alguém lhe acusar de se infantilizar com os games, concorde e convide-o para o lado claro da força.

E você (que não sei idade, quanto pesa ou quanto ganha), se não viu o menor sentido neste texto e por acaso ainda acha que a primeira imagem do artigo é um chapéu, pode estar com sérios problemas. Lhe convido para ser meu amigo e brincarmos de um bom game. A propósito: qual  o som de sua voz? Que brinquedos prefere? você coleciona borboletas?


De David Brasil: psicólogo e apaixonado pela arte em pixels
arenadecimaarte@gmail.com

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